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Ruy Duarte de Carvalho
Angola
Era Janeiro
Hás-de lembrar-te que por aqui passei.
Era janeiro e não tinha amigos.
Vinha de longe
E na mala trazia roupa suja
E alguns livros sem capa.
Dir-te-ei depois
das lembranças que hoje ainda não sei
Da surpresa
de dar pelo riso das crianças
e não estranhar
o ranço do embaraço
na aventura.
Poderia dizer de tudo já.
Dizer-te o que não vai acontecer.
Dizer-te, enfim
de como estar aqui não me pertence
nem te pertence
nem se prende a sábios loucos
nem a santos revelados pelo martírio.
Poderia até dizer-te, hoje e aqui
neste quarto de hotel
(familiarmente pobre e sujo)
o quão pouco me basta para enfrentar o mundo:
é vir assim, ousadamente, resgatar
duas horas de sol ao sudoeste.
in: Lavra (Poesia reunida 1970-2000)- e Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2005- Concepção gráfica de João Botelho
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